
Rio Vermelho à mesa: gastronomia em um dos bairros mais emblemáticos de Salvador
04/03/2026Há trajetórias que começam pela escolha de uma profissão. A de Deivid Santos, chef do Bulga, começou muito antes disso: pela necessidade, pelo cuidado e pela prática.
Baiano, nascido em Lauro de Freitas, Deivid teve seu primeiro contato com a cozinha ainda criança. Aos nove anos, enquanto sua mãe enfrentava um tratamento de hemodiálise, era ele quem preparava as refeições dos dois. Antes de existir qualquer pretensão profissional, cozinhar era uma maneira de alimentar a si mesmo e cuidar de quem amava.
A vida o levou cedo ao trabalho. Após a perda da mãe, passou a viver entre casas de familiares e, aos 12 anos, começou a trabalhar em uma padaria, onde também morava em um pequeno quarto nos fundos do estabelecimento. Era o início de uma independência construída muito cedo.
Uma formação construída na prática
Já em Salvador, Deivid passou por diferentes trabalhos até encontrar uma oportunidade como garçom em uma conhecida barraca de praia. Sua dedicação abriu as portas da cozinha — e foi ali que preparou um prato profissionalmente pela primeira vez.
Era um peito de frango com corte xadrez e creme de milho verde. Uma preparação que ele guarda na memória até hoje.
Naquele ambiente, começou a desenvolver seu domínio sobre proteínas e a construir, pela repetição e pela observação, sua base técnica. Mais tarde, ao integrar a equipe de inauguração de outro restaurante da cidade, ampliou seu repertório, aprofundando conhecimentos sobre molhos, massas e combinações mais elaboradas.
Não houve uma formação gastronômica convencional conduzindo esse percurso.
A escola de Deivid foi a própria cozinha.
A técnica nasceu do fazer. O repertório, da curiosidade. E a identidade foi sendo construída pela capacidade de observar, experimentar e confiar nos próprios sentidos.
É justamente essa trajetória que estabelece uma conexão singular entre o Chef e a história do Bulga. O avô de Arthur, restaurateur da casa, também construiu sua cozinha de maneira autodidata, guiado pela prática, pela experiência e pela sensibilidade. São histórias distintas, de gerações diferentes, que compartilham uma mesma compreensão do ofício: o conhecimento também pode ser cultivado pelas mãos.
Talento cultivado
Hoje, é Deivid quem está à frente da cozinha do Bulga.
Sua trajetória ajuda a explicar uma cozinha em que técnica e intuição não ocupam lados opostos. Uma alimenta a outra. O conhecimento adquirido ao longo dos anos dá estrutura à liberdade de criar; a experiência permite compreender ingredientes, tempos, texturas e combinações sem transformar o prato em um exercício puramente técnico.
Essa escolha também traduz algo essencial sobre o próprio Bulga: uma casa que encontra na autoria, na sensibilidade e no talento cultivado pela experiência parte de sua identidade.
Deivid é autodidata. Sensorial. Técnico sem ser acadêmico.
Antes de ser profissão, para ele, a cozinha foi cuidado. Antes da técnica, veio a necessidade. Antes do reconhecimento, veio a persistência.
Hoje, toda essa história encontra um novo lugar.
Deivid está na cozinha do Bulga. E você, à mesa.


